Rivaldo: O grande Brasil e Barcelona que – na pobreza infantil – nunca ousou sonhar

No início de 1991, um jovem de 18 anos estava em uma padaria na Paulista, uma região decadente de Recife, no Nordeste do Brasil, esperando para ser entrevistado pela mídia local. Ele não se parecia muito com um jogador de futebol.

Incomodantemente magro, sua camiseta marrom indefinível pendurada em seus ombros e longas pernas curvadas para fora na altura do joelho – um sinal claro de deficiência de vitamina D e a razão de seu andar de pernas arqueadas.

Suas bochechas pareciam encovadas, resultado de ter perdido a maioria dos dentes devido à desnutrição crônica no início da adolescência.

Ele havia chegado às manchetes recentemente depois de uma cabeçada perfeita e esticada na estreia pelo Santa Cruz. Como resultado, um repórter de TV o procurou, ansioso para discutir suas ambições de carreira.

O modesto jovem respondeu entre goles de um coco fresco: “Meu sonho já está se concretizando; jogar pelo Santa Cruz. Espero conseguir mais e me tornar um ídolo da torcida do clube”.

Rivaldo, que completa 50 anos em abril, conquistou muito, muito mais. Ele agora pode olhar para trás e ver uma carreira que não apenas excedeu amplamente suas próprias expectativas, mas também refutou a crença amplamente difundida de que devemos sonhar grande para alcançar o sucesso.

Uma década depois daquela entrevista, ele ganhou a Bola de Ouro, foi eleito o Jogador do Ano da Fifa e marcou pelo Barcelona, ​​o que muitos consideram o maior hat-trick de todos os tempos.

Em 2002, ele havia levantado a Copa do Mundo como parte integrante da temível linha de frente do Brasil – Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo. Um ano depois, ele somou o título da Liga dos Campeões com o AC Milan.

Sonhe grande, eles dizem. A menos que sua educação não o permita.


“Você tem que viver na pobreza para saber o que é a pobreza”, disse Rivaldo à revista argentina de futebol El Grafico em 1999. “Você trabalha o dia todo para ter muito pouco, para passar fome, para sofrer.

“Na Paulista é difícil sonhar.”

Filho do meio de cinco anos, Rivaldo Vitor Borba Ferreira cresceu na periferia do Recife em uma favela onde os turistas nunca se perdiam e os sonhadores eram considerados delirantes.

Quando menino, ajudava os pais a trabalhar nos fins de semana, arrancando ervas daninhas dos jardins e vagando pelas praias mais populares da cidade, vendendo chicletes e picolés. Em dias de jogos, ele se instalava fora do Estádio do Arruda, casa de sua querida Santa Cruz.

Os professores de Rivaldo descrevem um menino tímido, nervoso para ler em voz alta, mas mais comportado do que seus dois irmãos mais velhos. Gostava de jogar futebol descalço, idolatrando Zico e Diego Maradona.

Amigos lembram como ele sempre foi o mais hábil, controlando a bola como se ela estivesse presa aos seus pés e golpeando com uma força surpreendente para uma criança tão magrinha. Mesmo assim, por mais que gostasse de jogar futebol, ele estava contente em pegar gafanhotos ou treinar galos para lutar.

Aos 13 anos, Rivaldo recebeu as primeiras chuteiras do pai Romildo e foi convidado três anos depois para um ensaio com o Santa Cruz, tendo treinado dentro e fora da armação juvenil.

Duas semanas antes do julgamento, Romildo foi fatalmente atingido por um ônibus. O filho ficou perturbado, pronto a desistir do jogo e entregar-se ao ambiente, convencendo-se de que a felicidade e o sucesso não eram para os rapazes do seu bairro.

Somente após a intervenção de sua mãe, Marlucia, a trajetória de Rivaldo mudou. Ela sentou o filho, olhou-o nos olhos e disse: “Seu pai não queria nada mais do que você ser um jogador de futebol profissional. Vá em frente.”

Ele fez isso.

O julgamento foi um sucesso, mas novos desafios surgiram logo. O centro de treinamento de Santa Cruz ficava a 15 km de sua casa e com menos dinheiro do que nunca, Rivaldo foi forçado a fazer a jornada de volta de 30 km a pé todos os dias. Ele chegava cansado e saía cansado – e suas pernas arqueadas se tornavam mais pronunciadas. Apesar de seu compromisso, era difícil receber elogios. Ele foi julgado com severidade – e continuaria sendo durante grande parte de sua carreira, pelo menos entre os brasileiros.

Desempenhos irregulares marcaram seus primeiros dias no Santa Cruz e ele rapidamente se tornou um bode expiatório para as falhas do clube.

Desrespeitado e desprezado, zombado pelos torcedores e demitido pelos dirigentes, ele acabou sendo usado como medalhão em uma troca de jogadores com o Mogi Mirim, da segunda divisão do São Paulo. João Caixeiro, ex-presidente do Santa Cruz, mais tarde chamou de “o pior negócio da história do clube”.

Rivaldo passou os quatro anos seguintes ganhando muitos elogios, mas ainda não encontrou uma aceitação generalizada.

No Mogi, ele conseguiu o que nem mesmo o grande Pelé conseguiu – marcando da linha do meio. Emprestado para o Corinthians em 1993, ele marcou 22 gols em 58 partidas disputadas antes de ser eleito o melhor jogador da temporada e marcar em sua estreia internacional contra o México. Mesmo assim, em mais de uma ocasião ele deixou o estádio escondido dentro de um saco de bolas de futebol, tamanha a pressão dos torcedores do clube.

Depois de cruzar o São Paulo para chegar ao Palmeiras, ele conquistou o título do campeonato brasileiro de 1994 e foi eleito o jogador da temporada mais uma vez. Tal consistência foi recompensada com novas convocações para a seleção, mas o técnico Carlos Alberto Parreira decidiu que o jovem de 22 anos era “muito egoísta” e “pouco confiável”, deixando-o em casa quando o Brasil venceria a Copa do Mundo de 1994.

Em 1996, com a saída de Parreira, Rivaldo foi incluído na seleção nacional para as Olimpíadas de Atlanta. Mais uma vez, porém, ele foi deixado arcando com a culpa.

Na semifinal contra a Nigéria, o Brasil venceu por 3-1 a 12 minutos do fim, quando perdeu a posse de bola no meio-campo e os africanos marcaram para trás. Marcaram mais dois gols para eliminar os favoritos e Rivaldo, também tendo perdido uma grande chance de gol, quebrou nos vestiários.

“O jogo contra a Nigéria foi um choque para todos porque a expectativa era que levássemos para casa a medalha de ouro”, lembra o ex-companheiro Luizao à BBC Sport. “Infelizmente foi um jogo atípico e todos ficaram tristes – Rivaldo mais do que ninguém porque recebeu muitas críticas. Mas ele sempre foi um jogador com muita personalidade, muita confiança em si mesmo.”

Questionado sobre isso anos depois, Rivaldo acrescentou: “Tenho uma lembrança amarga daquela época, mas me permitiu encontrar a motivação para mostrar que as críticas feitas a mim foram injustas”.

O técnico Mario Zagallo, encarregado de liderar o Brasil na Copa do Mundo da França em 1998, rejeitou publicamente as chances de Rivaldo representar seu país. Mas ele e muitos outros detratores mal poderiam ter imaginado o que estava para acontecer.


Embora seja lógico supor que críticas aparentemente implacáveis ​​de seus compatriotas levaram Rivaldo a buscar uma transferência para o exterior, a verdade é que o Palmeiras já havia concordado em vendê-lo ao Parma antes das Olimpíadas de 1996. Só depois de uma falha em chegar a um acordo sobre os detalhes do contrato é que ele acabou na Espanha. Foi no Deportivo La Coruña, onde 7.000 torcedores compareceram à sua apresentação naquele verão e esperavam que ele pudesse encher as botas do brasileiro Bebeto, que está de partida.

Rivaldo ficou na Galiza apenas um ano, desfrutando de grande sucesso pessoal e marcando 21 gols em 41 jogos, enquanto o Deportivo subia da mediocridade no meio da tabela para o terceiro lugar na La Liga, empatado com o Barcelona, ​​que agora estava prestando muita atenção.

Não era só o número de gols que Rivaldo estava fazendo, mas a variedade. Tap-ins, cabeçadas de bala, cobranças de falta dobradas, rebatidas de longe e até mesmo uma penalidade atrevida de Panenka que quase deu terrivelmente errado. Mas sempre que ligava para casa, sua família dizia que não tinha visto o jogo – a TV brasileira só se interessava pelo Barça e pelo Real Madrid.

Não foi nenhuma surpresa que quando os gigantes catalães concordaram em pagar sua cláusula de liberação de quatro bilhões de pesetas (no valor de cerca de £ 32 milhões hoje), Rivaldo estava pronto para fazer todo o necessário para fazer a troca.

O próximo capítulo é folclore moderno. Entre 1997 e 2002 o menino uma vez dispensado de seu primeiro clube por ser muito fraco, dominou a Europa e até o mundo com ritmo, força, controle magnético e um repertório infinito de excelência técnica.

Ele misturou precisão semelhante à de um míssil com rabonas regulares, identificou assistências com piruetas e marcou um número insondável de ataques maravilhosos. Como se para provar que seu gol pelo Mogi não fosse um acaso, ele voltou a marcar do meio da partida contra o Atlético de Madrid.

Em Camp Nou, ele marcou 130 gols a caminho de vencer a La Liga duas vezes, levantando a Copa del Rey e sendo premiado com a Bola de Ouro e o Jogador do Ano da Fifa em 1999.

Em 2001, aconteceu o “hat-trick” contra o Valência.

Era o último jogo da temporada e o Barça precisava vencer para se classificar para a Liga dos Campeões. O primeiro golo foi um foguete de cobrança de falta que ressoou na trave, o segundo outro remate imparável de longe. O seu terceiro – com o jogo empatado e dois minutos para o fim – veio de um planeta diferente. Virando-se para longe do gol, ele controlou um passe lascado em seu peito antes de acertar um chute de cima da borda da área de grande penalidade para garantir a vitória.

O companheiro do Barça, Simão Sabrosa, que fez amizade duradoura com o brasileiro, conta à BBC Sport: “Acabei assistindo aquela obra de arte como espectador. Foi uma noite incrível.

“Ele já tinha feito nos treinos, mas nunca tão longe do gol. Como nunca tinha feito, decidiu fazer história naquele jogo.

“Ele foi uma estrela, sempre exemplar, muito calmo, focado no trabalho, trabalhando todos os dias para ser melhor. Fora de campo era muito tímido, mas também atencioso e atencioso. Quando ganhou a Bola de Ouro, humilde como ele ou seja, ele fez questão de nos agradecer individualmente, dando a cada um de nós uma placa com uma mini bola dourada. “

Com o Brasil, Rivaldo alcançou um sucesso ainda maior, marcando três gols a caminho da final da Copa do Mundo de 1998, que perdeu para a França. Ele venceu a Copa América de 1999 e foi eleito o melhor jogador do torneio depois de conseguir dois gols na final para terminar como artilheiro do torneio. Na Copa do Mundo de 2002 na Coréia do Sul e no Japão, ele marcou nos primeiros cinco jogos do Brasil, quando o país conquistou o quinto título recorde.

O sinal mais claro do quanto seu jogo havia evoluído veio quando perguntaram ao técnico da Seleção, Luiz Felipe Scolari, quem ele considerava o melhor jogador do elenco de estrelas de 2002. Ronaldo? Ronaldinho? Cafu? Roberto Carlos?

“Sempre digo que o Rivaldo, naquela equipe, foi o jogador que mais me ajudou”, disse Scolari. “As pessoas às vezes esquecem o lado tático daquela equipe. Eles só veem o que aconteceu na final, os gols … mas Rivaldo foi o melhor jogador do time”.

Luizão concorda. “Todo mundo …”, diz, antes de se conter, “bom, a maioria do povo brasileiro. Eles sabem que Rivaldo foi o melhor jogador da Copa de 2002”.


Após uma curta passagem pelo AC Milan, onde venceu a Liga dos Campeões de 2003 após uma vitória na disputa de pênaltis sobre a Juventus em Old Trafford, os últimos estágios da carreira de Rivaldo o levaram para a Grécia, Uzbequistão, Angola e de volta ao Brasil.

Ele se aposentou notavelmente apenas em 2015 – mas não antes de realizar uma façanha final.

Em 2008, Rivaldo comprou o Mogi Mirim – clube que o contratou em 1992. Ele voltou como jogador para a temporada 2014/15. Aos 43 anos, ele jogou ao lado de seu filho Rivaldinho, de 20 anos, uma partida da segunda divisão brasileira, com os dois acertando o placar.

No entanto, o quadro mais amplo estava longe de ser otimista. Embora outrora adorado pelos torcedores do Mogi, a relação começou a azedar quando Rivaldo mudou o nome do estádio em homenagem ao pai, apesar de Romildo não ter vínculo com o time. A situação piorou quando ele transferiu os centros de treinamento para seu próprio nome, como parte do pagamento do investimento que havia feito. Sua esposa tornou-se vice-presidente e seu filho, presidente do conselho deliberativo.

Em dezembro de 2014, enfrentando críticas crescentes e devendo mais de R $ 10 milhões (£ 1,3 milhão), ele colocou o clube à venda e tornou a decisão conhecida via Instagram. A venda finalmente foi concluída em julho de 2015.

Rivaldo agora mora nos Estados Unidos, mas embora possa ser persona non grata em Mogi, ele continua voltando regularmente para Recife e ocasionalmente para seu bairro de infância Paulista – embora ele admita que muitas vezes o leva às lágrimas ao ver a pobreza, o desemprego e violência.

“Como uma criança pobre, a ideia de um dia ser considerado o melhor jogador do mundo, ser campeão mundial pela Seleção Brasileira, jogar pelo Barcelona … nunca me passou pela cabeça”, disse ele no início deste ano.

“O meu sonho era ser apenas profissional para a Santa Cruz. Isso, para mim, já era o suficiente”.

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